A
Ditadura e a Seleção do Tri
Em 1970, a ditadura militar brasileira
atingia seu ápice no sentido de reprimir aqueles que eram contrários ao regime
ditatorial, houve aumento dos casos de tortura e também um maior controle de
todo aparato de difusão da informação. Mesmo assim, o governo daquele período
soube muito bem usar algumas estratégias para que os assuntos mais obscuros
fossem encobertos, como por exemplo, o sucesso da seleção do tri campeonato
mundial de futebol.
Mesmo que o modus operandi da ditadura não fosse novidade nenhuma desde 1964, percebeu-se
a partir de 1968, com o estabelecimento do AI-5, houve um aumento na repressão. Este
período, que ficou conhecido como “anos de chumbo” se estenderia até o fim do
governo de Emílio Garrastazu Médici.
Os opositores ao regime militar eram tratados como
terroristas e assassinos pelos que estavam no poder. A luta armada era
encabeçada por jovens que não concordavam com a forma como o governo militar
agia, estes estavam dispostos a pegar em armas, fazerem assaltos visando a
obtenção de recursos para a manutenção da guerrilha e também sequestrar pessoas
importantes para o governo. No período após a promulgação do AI-5, os sequestros
por parte dos guerrilheiros se intensificaram, era a forma como opositores
conseguiam libertar seus companheiros presos, impor derrotas e causar
constrangimento ao governo militar.
Veja o depoimento de Fernando Gabeira,
sobre os sequestros
De 1969 a 1970, quatro grandes sequestros
impuseram grandes derrotas à ditadura militar: do embaixador norte-americano
Charles Burke Elbrick, do cônsul japonês Nobuo Okushi, do embaixador alemão
Ehrenfried Von Holleben e do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher.
Assista ao excelente filme documentário
“Hércules 56” que trata de do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick
O General Médici passou a exercer o
cargo de presidente do Brasil em outubro de 1969. Além da forte repressão, foi
durante seu governo que o Brasil experimentou um período de crescimento econômico,
e que de certa forma contribuiu para que ocultasse o que acontecia nos porões
da ditadura. O quadro abaixo mostra alguns dos principais pontos desse
“milagre” que não era tão santo assim.
Aproveitando o momento de estabilidade
econômica, a “paixão nacional”, o futebol, aparece como uma ótima ferramenta
para união povo e governantes. Mas, era preciso que a seleção conquistasse o
campeonato mundial do México, feito que não acontecia desde 1962, portanto
antes do golpe de 64. O sucesso na Copa de 70 era tudo o que Médici precisava.
O governo providenciou para que tudo
ocorresse conforme o planejado. A seleção deveria estar constantemente vigiada e
protegida de toda a ameaça comunista. O governo da época não poderia permitir
que os jogadores da seleção fossem aliciados durante suas viagens e nem que algum
deles tornasse público em entrevistas os desmandos do governo Médici, como
aconteceu com Pelé, que chegou a ser assediado por comunistas para que se
manifestasse contra a ditadura. O assédio aos jogadores era tanto que muitos do
corpo técnico da seleção estavam ligados ao governo, como o preparador físico
Capitão Cláudio Coutinho – que posteriormente, na Copa de 78 se tornaria o
técnico –, o chefe de segurança era o Major Guaranys – um conhecido torturador
–, todos estes eram chefiados pelo Brigadeiro Jerônimo Bastos. O esquema de
proteção à seleção era militar, era definitivamente uma seleção blindada.
Ainda em 1969 o então presidente da
CBD, João Havelange contrata para técnico da seleção o jornalista João
Saldanha, o intuito de Havelange era que as críticas à seleção por parte dos
jornalistas diminuíssem, já que teriam um deles no comando da equipe nacional.
O problema é que Saldanha era membro do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e
sobre ele recaíam várias suspeitas como, por exemplo, de levar em viagens
internacionais documentos que pudessem comprovar a repressão e casos de tortura
ocorridos no Brasil à imprensa mundial. Além do mais, João Saldanha não
aceitava as intromissões políticas no futebol, o que causou sua demissão. Mesmo
tendo feito uma boa campanha nas eliminatórias, Saldanha seria substituído por
Zagallo, o que permitiria um maior controle dessa ferramenta política que estava
sendo a equipe brasileira.
https://www.youtube.com/watch?v=X3gRDhJYX2w
Médici aproveitava do prestígio da
seleção para que esse sucesso estivesse relacionado com o seu governo, a
vitória da seleção era a vitória do povo, e se o povo estivesse vencendo não
haveria porque reclamar.
Médici, em suas campanhas, usava
frequentemente o tema futebol para pregar uma unidade nacional
O papel da televisão na propaganda do governo Médici
Depois de uma excelente campanha no
mundial do México, o Brasil sagra-se tricampeão mundial de futebol conquistando
assim a taça Jules Rimet. O povo vibrava, era uma vitória que Médici tomava pra
si. A Folha de São Paulo noticiou até que, na comemoração do título, Médici
convidou torcedores que estavam nas praças para adentrarem ao Palácio do
Planalto e se entrega aos braços do povo.
A televisão começava a se popularizar,
era a primeira copa a ser transmitida em cores, então ela teve um papel muito
importante na promoção da ideia de unidade nacional produzida pela seleção. Outros
veículos da imprensa também foram muito importantes e não pararam mesmo depois
da conquista do tri.
Um dos maiores exemplos que podemos dar
de propaganda que ajudou na união popular em torno da seleção foi a canção “Pra
Frente Brasil”, que foi tocada exaustivamente pelas rádios, e é até hoje
lembrada.
Toda a propaganda política usada pelo
regime militar para a exaltação de feitos próprios e a associação de sua imagem
com a imagem da seleção brasileira visava criar uma unidade nacional, levando o
povo a acreditar que tudo estava no caminho certo e que o sucesso brasileiro no
México era também, uma vitória dos militares.
O esporte, não de hoje, vem sendo
utilizado como ferramenta política, não apenas nos governos ditatoriais, mas
por quem quer que esteja no poder, servindo para exaltar as qualidades de um
povo e legitimar uma administração.
https://www.youtube.com/watch?v=nEd_CVso6iE
Um outro vídeo mostra o discurso da atual presidente Dilma
contrapondo com algumas imagens que negam sua fala, que apesar de ser uma
montagem serve para refletirmos sobre a forma de pensar dos políticos
https://www.youtube.com/watch?v=IHdeOw79fJw
A copa do Brasil encaixa-se perfeitamente como um exemplo de
uso do esporte para a unificação social, exaltação e legitimação do poder, e
você o que acha?
Para compreensão do tema tratado, sugerimos uma análise do filme "O ano em que meus pais saíram de férias" de Cao Hamburguer.
Sinopse
Em 1970, Mauro (Michel Joelsas) é um garoto brasileiro que tem 12 anos e como muitos outros de sua idade, ama futebol. De um dia para o outro a sua vida sofre uma reviravolta, pois, de repente seus pais saem de férias sem dar muitas explicações a ele. Os pais do garoto, estavam sendo perseguidos pela ditadura e se viram obrigados a fugir por serem contra o regime militar, deixando-o com o avô paterno (Paulo Autran). O avô de Mauro morre e o menino é obrigado a ficar com um judeu chamado Shlomo (Germano Haiut) e que é vizinho de seu avô. Durante a espera pela volta dos pais, Mauro tem de aprender a lidar com essa situação em que alterna momentos de tristeza por estar longe dos familiares e alegria por poder acompanhar a seleção brasileira de futebol que disputa a copa do mundo de futebol no México.
Assista ao filme aqui
https://www.youtube.com/watch?v=fnrhYwuxaTs
O objetivo deste trabalho
O objetivo desta atividade é a elaboração de um texto de 30 linhas contendo elementos que vc aprendeu sobre política e futebol com alguns pontos que são tratados no filme e que mostram como foi aquele período, como:
- A felicidade pela Copa e a tensão pela repressão;
- A vida de uma família de classe média;
- O Milagre econômico e o ufanismo;
- A presença dos discursos políticos na televisão;
- Ideologia e nacionalismo;
- União de pessoas diferentes através do futebol;
- Desaparecidos políticos;
- Confronto envolvendo os estudantes;
- O exílio e a copa do mundo.
Fontes
CHAIM, Anibal Renan Martinot. A bola e o chumbo: futebol e política nos anos de chumbo da
ditadura militar brasileira, 2006, 163 p. Dissertação (Ciência Política) Universidade
de São Paulo, São Paulo.
FRANÇA, Breno dos Santos. Futebol foi instrumento político durante a ditadura militar. In: http://www.usp.br/aun/exibir.php?id=5933,
acessado em 15 de junho de 2014.
GUTERMAN, Marcos. O
futebol explica o Brasil: o caso da copa de 70. 2006, 140 p. Dissertação
(História) Pontifica Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.