Blog criado por Jonas Davis do Nascimento, Rodrigo Santana de Oliveira e Tony Leandro de Souza. Alunos do 4ª ano Noturno do Curso de Graduação em História da Universidade Estadual de Londrina. Disciplina Tópicos de Ensino de História Contemporânea. Docente Professor Dr. José Miguel Arias Neto.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A Ditadura e a Seleção do Tri




A Ditadura e a Seleção do Tri
  

Em 1970, a ditadura militar brasileira atingia seu ápice no sentido de reprimir aqueles que eram contrários ao regime ditatorial, houve aumento dos casos de tortura e também um maior controle de todo aparato de difusão da informação. Mesmo assim, o governo daquele período soube muito bem usar algumas estratégias para que os assuntos mais obscuros fossem encobertos, como por exemplo, o sucesso da seleção do tri campeonato mundial de futebol.

O contexto da época

 Mesmo que o modus operandi da ditadura não fosse novidade nenhuma desde 1964, percebeu-se a partir de 1968, com o estabelecimento do AI-5, houve um aumento na repressão. Este período, que ficou conhecido como “anos de chumbo” se estenderia até o fim do governo de Emílio Garrastazu Médici.


Os Opositores do regime: a luta armada




Os opositores ao regime militar eram tratados como terroristas e assassinos pelos que estavam no poder. A luta armada era encabeçada por jovens que não concordavam com a forma como o governo militar agia, estes estavam dispostos a pegar em armas, fazerem assaltos visando a obtenção de recursos para a manutenção da guerrilha e também sequestrar pessoas importantes para o governo. No período após a promulgação do AI-5, os sequestros por parte dos guerrilheiros se intensificaram, era a forma como opositores conseguiam libertar seus companheiros presos, impor derrotas e causar constrangimento ao governo militar.
 
Veja o depoimento de Fernando Gabeira, sobre os sequestros


De 1969 a 1970, quatro grandes sequestros impuseram grandes derrotas à ditadura militar: do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, do cônsul japonês Nobuo Okushi, do embaixador alemão Ehrenfried Von Holleben e do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher.

Assista ao excelente filme documentário “Hércules 56” que trata de do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick

https://www.youtube.com/watch?v=xxPNQfNpkOo


 O General Médici passou a exercer o cargo de presidente do Brasil em outubro de 1969. Além da forte repressão, foi durante seu governo que o Brasil experimentou um período de crescimento econômico, e que de certa forma contribuiu para que ocultasse o que acontecia nos porões da ditadura. O quadro abaixo mostra alguns dos principais pontos desse “milagre” que não era tão santo assim.


Aproveitando o momento de estabilidade econômica, a “paixão nacional”, o futebol, aparece como uma ótima ferramenta para união povo e governantes. Mas, era preciso que a seleção conquistasse o campeonato mundial do México, feito que não acontecia desde 1962, portanto antes do golpe de 64. O sucesso na Copa de 70 era tudo o que Médici precisava.

Uma Seleção protegida e vigiada

O governo providenciou para que tudo ocorresse conforme o planejado. A seleção deveria estar constantemente vigiada e protegida de toda a ameaça comunista. O governo da época não poderia permitir que os jogadores da seleção fossem aliciados durante suas viagens e nem que algum deles tornasse público em entrevistas os desmandos do governo Médici, como aconteceu com Pelé, que chegou a ser assediado por comunistas para que se manifestasse contra a ditadura. O assédio aos jogadores era tanto que muitos do corpo técnico da seleção estavam ligados ao governo, como o preparador físico Capitão Cláudio Coutinho – que posteriormente, na Copa de 78 se tornaria o técnico –, o chefe de segurança era o Major Guaranys – um conhecido torturador –, todos estes eram chefiados pelo Brigadeiro Jerônimo Bastos. O esquema de proteção à seleção era militar, era definitivamente uma seleção blindada.

A delegação brasileira se encontra com Médici


O temido “João Sem Medo”.

Ainda em 1969 o então presidente da CBD, João Havelange contrata para técnico da seleção o jornalista João Saldanha, o intuito de Havelange era que as críticas à seleção por parte dos jornalistas diminuíssem, já que teriam um deles no comando da equipe nacional. O problema é que Saldanha era membro do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e sobre ele recaíam várias suspeitas como, por exemplo, de levar em viagens internacionais documentos que pudessem comprovar a repressão e casos de tortura ocorridos no Brasil à imprensa mundial. Além do mais, João Saldanha não aceitava as intromissões políticas no futebol, o que causou sua demissão. Mesmo tendo feito uma boa campanha nas eliminatórias, Saldanha seria substituído por Zagallo, o que permitiria um maior controle dessa ferramenta política que estava sendo a equipe brasileira.

João Saldanha não aceita intromissões na seleção: “...nem eu escalo ministério nem o presidente escala time …”

https://www.youtube.com/watch?v=X3gRDhJYX2w


Futebol: canal de diálogo com o povo

Médici aproveitava do prestígio da seleção para que esse sucesso estivesse relacionado com o seu governo, a vitória da seleção era a vitória do povo, e se o povo estivesse vencendo não haveria porque reclamar.

Médici, em suas campanhas, usava frequentemente o tema futebol para pregar uma unidade nacional

https://www.youtube.com/watch?v=nQUxyZOMKq4

  
 O papel da televisão na propaganda do governo Médici


Depois de uma excelente campanha no mundial do México, o Brasil sagra-se tricampeão mundial de futebol conquistando assim a taça Jules Rimet. O povo vibrava, era uma vitória que Médici tomava pra si. A Folha de São Paulo noticiou até que, na comemoração do título, Médici convidou torcedores que estavam nas praças para adentrarem ao Palácio do Planalto e se entrega aos braços do povo.

Médici recebe os campeões do mundo
 
 
A televisão começava a se popularizar, era a primeira copa a ser transmitida em cores, então ela teve um papel muito importante na promoção da ideia de unidade nacional produzida pela seleção. Outros veículos da imprensa também foram muito importantes e não pararam mesmo depois da conquista do tri.

Slogans Brasil na década de 70
            
            
Um dos maiores exemplos que podemos dar de propaganda que ajudou na união popular em torno da seleção foi a canção “Pra Frente Brasil”, que foi tocada exaustivamente pelas rádios, e é até hoje lembrada.

Letra da música “Pra Frente Brasil” de Miguel Gustavo




O discurso ontem

Toda a propaganda política usada pelo regime militar para a exaltação de feitos próprios e a associação de sua imagem com a imagem da seleção brasileira visava criar uma unidade nacional, levando o povo a acreditar que tudo estava no caminho certo e que o sucesso brasileiro no México era também, uma vitória dos militares.

O discurso hoje


O esporte, não de hoje, vem sendo utilizado como ferramenta política, não apenas nos governos ditatoriais, mas por quem quer que esteja no poder, servindo para exaltar as qualidades de um povo e legitimar uma administração.

Veja o discurso de Lula em 2007, logo após o Brasil conquistar o direito de sediar a Copa de 2014.

https://www.youtube.com/watch?v=nEd_CVso6iE 


Um outro vídeo mostra o discurso da atual presidente Dilma contrapondo com algumas imagens que negam sua fala, que apesar de ser uma montagem serve para refletirmos sobre a forma de pensar dos políticos
 https://www.youtube.com/watch?v=IHdeOw79fJw 
   

A copa do Brasil encaixa-se perfeitamente como um exemplo de uso do esporte para a unificação social, exaltação e legitimação do poder, e você o que acha?


Para compreensão do tema tratado, sugerimos uma análise do filme "O ano em que meus pais saíram de férias" de Cao Hamburguer.



Sinopse


Em 1970, Mauro (Michel Joelsas) é um garoto brasileiro que tem 12 anos e como muitos outros de sua idade, ama futebol. De um dia para o outro a sua vida sofre uma reviravolta, pois, de repente seus pais saem de férias sem dar muitas explicações a ele. Os pais do garoto, estavam sendo perseguidos pela ditadura e se viram obrigados a fugir por serem contra o regime militar, deixando-o com o avô paterno (Paulo Autran). O avô de Mauro morre e o menino é obrigado a ficar com um judeu chamado Shlomo (Germano Haiut) e que é vizinho de seu avô. Durante a espera pela volta dos pais, Mauro tem de aprender a lidar com essa situação em que alterna momentos de tristeza por estar longe dos familiares e alegria por poder acompanhar a seleção brasileira de futebol que disputa a copa do mundo de futebol no México.

Assista ao filme aqui

https://www.youtube.com/watch?v=fnrhYwuxaTs


O objetivo deste trabalho

O objetivo desta atividade é a elaboração de um texto de 30 linhas contendo elementos que vc aprendeu sobre política e futebol com alguns pontos que são tratados no filme e que mostram como foi aquele período, como:

  • A felicidade pela Copa e a tensão pela repressão;
  • A vida de uma família de classe média;
  • O Milagre econômico e o ufanismo;
  • A presença dos discursos políticos na televisão;
  • Ideologia e nacionalismo;
  • União de pessoas diferentes através do futebol;
  • Desaparecidos políticos;
  • Confronto envolvendo os estudantes;
  • O exílio e a copa do mundo. 


Fontes

CHAIM, Anibal Renan Martinot. A bola e o chumbo: futebol e política nos anos de chumbo da ditadura militar brasileira, 2006, 163 p. Dissertação (Ciência Política) Universidade de São Paulo, São Paulo.

FRANÇA, Breno dos Santos. Futebol foi instrumento político durante a ditadura militar. In: http://www.usp.br/aun/exibir.php?id=5933, acessado em 15 de junho de 2014.

GUTERMAN, Marcos. O futebol explica o Brasil: o caso da copa de 70. 2006, 140 p. Dissertação (História) Pontifica Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.